2. ENTREVISTA 28.8.13

FRANCIS FUKUYAMA - "MUDANAS POLTICAS ENVOLVEM MAIS DO QUE PROTESTAR"

O cientista poltico americano diz por que  difcil estudantes e jovens conseguirem converter a energia das ruas em transformaes duradouras na sociedade
por Daniela Mendes 

EXCLUSO - Minorias organizadas usam o sistema poltico em benefcio prprio e a grande maioria tende a ser ignorada, diz ele

O cientista poltico americano Francis Fukuyama, 60 anos, ganhou notoriedade com o livro O Fim da Histria e o ltimo Homem (1992). Fukuyama defendia que o triunfo do capitalismo e das democracias liberais sobre os demais sistemas polticos e econmicos era o captulo final da guerra de ideologias que marcou a evoluo da histria humana. Ph.D. em cincias polticas por Harvard, ele foi um dos formuladores da Doutrina Reagan, estratgia implementada pelos EUA em oposio  influncia global da Unio Sovitica durante os anos finais da Guerra Fria. Fukuyama afastou-se dos republicanos na era Bush, por discordar de suas intervenes militares, e apoiou a eleio de Obama. Autor de uma dezena de livros, lanou no Brasil este ano As Origens da Ordem Poltica (editora Rocco). Atualmente,  professor na Universidade de Stanford, na Califrnia, de onde falou  ISTO, e nas horas vagas dedica-se ao seu hobby: fotografar.

"Dilma foi tmida demais nas iniciativas de levar adiante as reformas. Agora corre atrs do prejuzo. Ela podia ter se antecipado aos protestos

O Egito precisa de reconciliao.  importante pensar em como integrar a Irmandade  Muulmana num sistema de fato democrtico

Isto - O sr. diz que existe uma nova classe mdia global. Como ela pode ser definida?

Francis Fukuyama - No acho que devemos defini-la apenas por renda, que  o que os economistas fazem. Acho que o nvel de educao e o status ocupacional  que so realmente importantes, assim como os ativos de que a pessoa dispe. Quem tem um imvel, por exemplo, tem uma atitude diferente diante do governo do que de quem ganha dinheiro como vendedor ambulante.

Isto - O que muda? 

Francis Fukuyama - H muitos dados empricos sobre isso. Quando as pessoas alcanam um nvel melhor de educao, concluindo o ensino mdio ou cursando faculdade, elas tendem a ser mais abertas s influncias externas, so mais tolerantes, interessadas em democracia. Numa comunidade pobre as pessoas esto to preocupadas com a sobrevivncia, em colocar comida na mesa, que no tm muito tempo para se preocupar com participao poltica. Embora a pessoa seja afetada pelas aes do governo, ela no acha que pode fazer muito. Isso comea a mudar com a classe mdia. 

Isto - Mas o sr. diz que a classe mdia  importante para reivindicar mudanas, porm raramente atinge seus objetivos. 

Francis Fukuyama - A verdadeira mudana poltica envolve mais do que protestar. As redes sociais so muito boas para mobilizar, para se opor a algo, como ocorreu nos protestos no Brasil e na Turquia. Mas, para isso levar a duradouras mudanas no funcionamento da sociedade, esta energia tem de ser convertida em algo mais duradouro. E, numa democracia, voc precisa de um partido poltico. 

Isto - Os protestos no trazem uma nova pauta?

Francis Fukuyama - Os protestos so bons para capturar a ateno dos polticos para uma gama de assuntos e for-los a responder de alguma forma. Mas conseguir efetivar a pauta de reivindicaes requer leis. E, para isso,  preciso ter maioria no Congresso,  preciso ter polticos organizados que possam desenvolver essa pauta. H um contraste interessante nos EUA.  esquerda, o movimento Occupy Wall Street, focado em igualdade de renda, conseguiu divulgar suas ideias. Mas no se organizou para ter candidatos ao Congresso que pudessem implementar sua pauta, e por isso no teve um impacto duradouro.  direita, o Tea Party mobilizou pessoas para serem eleitas pelo Partido Republicano  o que levou o partido mais  direita. O Tea Party entendeu que, quanto mais ativo estivesse na poltica, indo alm de simplesmente protestar, maior efetividade teria. Estudantes e jovens so muito bons para protestar, mas no to bons na construo e organizao de foras polticas que possam implementar mudanas. 

Isto - Como solucionar a crise de representatividade que os partidos polticos enfrentam em todo o mundo?

Francis Fukuyama - H muitos assuntos caros s pessoas, mas no to caros a ponto de elas se envolverem politicamente. H grupos muito atuantes. Por exemplo, os bancos nos EUA se interessam muito pelo tema regulamentao bancria. Eles tm muito dinheiro e podem pagar lobistas poderosos. E essas pessoas influenciam o Congresso. Provavelmente, 80% dos americanos tm raiva desses bancos por causa da crise financeira, mas no so organizados o suficiente para demandar um novo tipo de regulamentao, no concordam sobre que tipo de regulamentao  necessrio,  um assunto tcnico. Acho que  a que nasce a crise de representatividade. Algumas minorias bem organizadas na sociedade usam o sistema poltico em benefcio prprio e a grande maioria tende a ser ignorada. 

Isto - A atual democracia representativa  incapaz de combater os excessos do capitalismo?

Francis Fukuyama - Acho que no  essa a questo. Isso  resultado do fracasso das lideranas de esquerda no mundo, nos Estados Unidos, na Europa, e em menor grau na Amrica Latina. A esquerda no conseguiu dar voz a questes que tm amplo apoio popular nem foi capaz de apresentar essa pauta de uma forma que os outros vejam que so coisas importantes a serem feitas. No caso do Brasil, a maior parte do problema est na velha classe poltica, que  intransigente, e nos polticos corruptos. 

Isto - Como tornar o sistema poltico brasileiro menos corrupto?

Francis Fukuyama - Isso aconteceu em vrios pases, incluindo os EUA. No incio no sculo XX, os EUA tinham um sistema poltico extremamente corrupto e clientelista. Foi estabelecida uma srie de leis, a burocracia estatal se tornou mais profissional e o pas foi atrs dos corruptos, pessoas foram processadas, foi uma longa luta. Acho que acontecer a mesma coisa no Brasil j que existe uma grande classe mdia que no gosta desse velho sistema. Ela pode ser adequadamente mobilizada para obter polticas mais duras contra a corrupo, porm no tm surgido lideranas capazes de tomar  frente para fazer essas mudanas.

Isto - O que acha da presidncia de Dilma Rousseff?

Francis Fukuyama - Ela estava fazendo um bom trabalho dando continuidade ao legado de Lula, mas foi tmida demais nas iniciativas de levar adiante as reformas. Como resultado, ela parece que est correndo atrs do prejuzo ao se conectar com os manifestantes e propor uma pauta de reformas. Ela poderia ter tentado se antecipar aos protestos.

Isto - Quase mil pessoas morreram nas ruas do Egito nos ltimos dias. O sr. v o risco de uma guerra civil?

Francis Fukuyama - As cenas do Egito so muito chocantes. O uso da violncia vai voltar a assombrar o governo militar pela radicalizao com os islmicos e incentiv-los a voltar-se para a violncia. No tenho uma viso rgida do golpe porque no acho que a Irmandade Muulmana era um partido democrtico. Eles usaram a eleio para chegar ao poder e deixaram claro que, uma vez l, no iriam deix-lo mais. O presidente deposto Mursi conseguiu apenas uma maioria apertada na eleio presidencial e parlamentar, mas agia como se tivesse um imenso mandato para mudar drasticamente o regime em favor da Irmandade Muulmana.

Isto - A sada do vice-presidente El Baradei torna a democracia mais distante?

Francis Fukuyama - Os militares tiveram alguns aliados liberais como El Baradei, mas agora eles esto indo embora. O pas precisa de reconciliao, mas isso no parece que vai acontecer em breve. As foras democrticas do Egito tm um grande problema porque ser difcil tirar os militares do poder agora. E espero que eles estejam sendo honestos quando dizem que pretendem devolver o poder aos civis e faam eleies para refletir  o que acho que  de fato  a opinio majoritria no pas, que no quer a Irmandade Muulmana no governo, embora seja importante pensar em como integr-los num sistema de fato democrtico. No acho que seja tarde demais, mas o que aconteceu  perigoso porque colocou precedente ruim para a democracia no futuro.

Isto - O sr. acredita que  possvel instituir uma democracia no estilo ocidental em pases islmicos?

Francis Fukuyama - No vejo razo cultural para que isso no seja possvel. A Europa levou 150 anos para criar os sistemas democrticos. Os europeus no tinham polticas ligadas  religio, mas tinham o nacionalismo. Na Alemanha, na Frana, na ustria havia uma abertura democrtica que foi sequestrada pelo nacionalismo. Acho que o mesmo ocorreu no Egito. A abertura democrtica foi sequestrada pelos islmicos. 

Isto -  possvel ter um Estado laico nos pases muulmanos?

Francis Fukuyama - Sim, e acho que a Turquia  um modelo. No precisa ter o rigoroso anticlericalismo que caracterizava o antigo regime turco. Porque, de fato, l as pessoas so religiosas. Na Europa voc tem partidos cristos democrticos que se reconciliaram com a democracia. No  impossvel, mas vai levar tempo, talvez dcadas. Acho que ser mais rpido do que foi na Europa porque eles tm exemplos de como a democracia funciona em outras partes do mundo. As pessoas tm de se acostumar com a ideia de dividir o poder, de que problemas no sero solucionados pela fora, e isso no acontece do dia para a noite. 

Isto - Nessa perspectiva, como o sr. v a situao da China? Acredita que eles querem uma democracia ocidental?

Francis Fukuyama - No acho que a maioria dos chineses queira uma transio rpida para uma democracia total, em parte porque eles sabem que h muitos pobres na China e haver populismo, demandas para redistribuio de renda, etc. Acredito que primeiro eles queiram a liberalizao do sistema poltico. Muitos chineses de classe mdia querem mais acesso  informao, que o governo seja mais transparente. H um caminho em direo a uma gradual liberalizao e democratizao do sistema poltico que no envolve uma transio rpida para uma democracia multipartidria. De qualquer forma, o Partido Comunista seria uma fora to dominante que  difcil ver como um partido de oposio poderia chegar ao poder. 

Isto - O sr. cr que a China ser uma superpotncia maior que os EUA? 

Francis Fukuyama - No contaria com isso. Economicamente eles podem alcanar os EUA, mas da a ficarem ricos como os EUA depende de uma estabilidade poltica de longo prazo. 

Isto - No  contraditrio os EUA, que valorizam tanto as liberdades individuais, serem pegos espionando seus cidados e outros pases? 

Francis Fukuyama - Sim,  terrvel, embora o Congresso, em ltima instncia, tenha aprovado isso. Esse programa deve ser mais transparente e deve haver mais controle sobre as atividades em que o governo se engaja. O governo precisa ter seus segredos, precisa fazer coisas que restringem a liberdade das pessoas, mas no houve equilbrio. Afinal, as ameaas que os EUA sofreram no so uma ameaa  sua existncia. Temos que tomar extremo cuidado quando abrimos mo de muitas liberdades.

